
Escrevo-te porque necessito de te escrever. Mesmo que já não tenhas nada a ver comigo e a tua alma já não se funda com a minha, tenho mesmo de te escrever porque sei que só assim irás encontrar a chave para a tua felicidade, mesmo que não seja ao meu lado. Sei que estarás na freguesia ao lado, mas custa sempre nunca te encontrar em cada esquina.
Escrevo-te porque só assim me ouves, me contemplas e, por breves segundos, me dás atenção.
Escrevo-te porque já não és o meu sangue, já não és a minha principal preocupação e porque já não te vejo há imensos meses e tenho saudades tuas, mesmo que isso seja ilegal.
Tu não sabes nada da vida e és mais velho que eu. Pergunto-me quando irás crescer, quando irás aguentar uma relação de longa duração e quando irás parar de ser criança, mas nunca obtenho resposta.
Às vezes pergunto-me qual será o estado do teu coração de pedra e só me vêm palavras como recobro, recuperação, recolhimento, reflexão e será mesmo isso?
Custa-me sempre passar pela tua cidade, porque foi aí que nos conhecemos, nos cruzámos e nos encontrámos e cada vez que regresso aí, estamos a visitar-nos um ao outro; eu vejo-te lá sempre que quero e tu fechas os olhos imaginando a minha chegada. Claro que sonho muito.
Tu não sabes fazer luto das relações. Mergulhas de cabeça logo na seguinte, quando a anterior ainda não acabou e vais acumulando uma série de assuntos pendentes na tua vida.
Estou sem rumo e sem remos, e não sei quando irei seguir o meu caminho. Já não te amo, nem gosto de ti, apenas te fundiste no meu coração como os outros meus grandes amores e ainda me é frustrante ver-te seguir com a tua vida, ainda por cima sem mim, eu, que dizias que era a saída para os teus problemas. De certo que as palavras são apenas palavras, não actos, correcto?
Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida - e tu mudaste a minha vida por uns meses, senti-me como uma mãe, mas ao mesmo tempo amada como um amor impossível.
Escrevo-te porque parece que já não precisas de mim, porque estragaste tudo. Escrevo-te porque sei que daqui a uns tempos irás ter saudades minhas e irás desejar que tivéssemos durado mais um pouco, mais umas horas.
Escrevo-te porque não me lembro da última vez que te vi, provavelmente quando vieste aqui e andaste a primeira vez de transportes públicos. Agora já tens mais um conhecimento, já conheces uma nova região e sei que irás sorrir ao ler o que te escrevo.
Escrevo-te para te dizer adeus [ou um até já, se assim preferires]. Escrevo-te para te dizer que vou tentar seguir com a minha vida, que o meu rumo não é aqui, mas sim noutro sítio longe daqui. Se me voltarás a ver? (...)